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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Repórter TVI: A seita do fim do mundo



“”(…)  José Julino Kalupeteka, líder de uma seita adventista e senhor de reconhecidos dotes oratórios, conseguiu convencer milhares dos seus fiéis angolanos de que o Mundo há-de acabar ainda este ano de 2015. E com esta profecia acabou por gerar a maior confusão, que redundou em mortos, feridos, acusações e detenções. Muita gente vendeu casa, gado e terras ao desbarato, dentro da mais pura lógica de fé: se o Mundo vai acabar, de nada valem os bens materiais. 

Dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia, o pastor Kalupeteka, 52 anos, pai de 8 filhos, decidiu formar a sua própria seita. Chamou-lhe "A Luz do Mundo". Seduziu milhares de adventistas na sua província-natal, o Huambo, e decidiu transformar em "templo ao ar livre" o Monte Sume, pequena montanha perto da aldeia onde nasceu, no chamado Sector Quilómetro 25, exactamente a 25 quilómetros da Caála, sede do município.

Ao longo de vários anos, Kalupeteka ditou as suas regras, algumas com óbvios aspectos antissociais. Por exemplo: não aceitar o Censo populacional, não deixar as crianças da seita frequentarem a escola, proibir a ingestão de frescos, bolachas e congelados; quanto a carnes e peixes, só se devem comer os animais que se viram matar ou pescar. Por causa destes comportamentos, registaram-se vários confrontos entre os fiéis de Kalupeteka e a polícia, no início de 2015, nas províncias do Bié e de Benguela. Os fiéis da seita, os "kálus", são considerados por muita gente como fanáticos, teimosos e inflexíveis. Mas Kalupeteka viu mais longe: anunciou o fim do Mundo. Uma profecia que já custou a morte a, pelo menos, 22 pessoas - nove polícias e 13 fiéis seguidores.

16 de abril: o dia fatídico     

No princípio deste ano, Kalupeteka foi intimado, inclusive por carta, a ir prestar declarações às autoridades, na Caála. Recusou. Os sobas da região, autoridades tradicionais com prestígio e poder, tentaram servir de intermediários com a Polícia Nacional e com a Justiça. Segundo o soba da Aldeia do Km 25, Kinta Mandjolo, Kalupeteka fez finca-pé e não quis sair do seu feudo do Monte Sume."Ele já tinha recusado o Censo.Depois, rejeitou a carta para ir à Caála", conta o soba. Tito Cassule, Procurador da República no Huambo, uma das províncias mais importantes do país, explica que, face aos acontecimentos e às recusas do líder da seita, a polícia foi encarregada de ir ao Monte Sume executar um mandado de captura. 

No último dia 16 de Abril, os acontecimentos precipitaram-se. Estava marcado um congresso da "Luz do Mundo" para os dias seguintes. Muitos fiéis vinham então a caminho, desde as províncias do Bié, Huíla, Benguela, até de Luanda. No acampamento, segundo o Procurador da República, não estariam mais de 250 pessoas, incluindo os guardas-costas e os seus mais fiéis seguidores, a começar por um grupo de mulheres. Um grupo de 11 elementos da polícia, incluindo o superintendente-chefe da polícia da Caála, Comandante Catumbela, e o chefe da Polícia de Intervenção Rápida do Huambo, intendente Luhengue Joaquim José, subiram ao Monte Sume para executarem o mandado de captura. Dos vários oficiais, alguns até mantinham relações cordiais com Kalupeteka. Não há testemunhos precisos ou fidedignos sobre o que aconteceu exactamente naquela altura. A verdade é que 9 dos 11 polícias, incluindo as cinco altas patentes, foram mortos à paulada e à catanada quando se preparavam para deter o líder da seita. Nas imediações, o resto do contingente policial apercebeu-se do que estava a acontecer e avançou monte acima. Na confusão, 13 homens seguidores do líder foram mortos a tiro, reconhecem as autoridades policiais e judiciais. Homens, mulheres e crianças fogem para a mata e para as aldeias vizinhas. Foge também  Kalupeteka, acompanhado por um dos filhos, os guarda-costas e os principais colaboradores, mas o líder é detido no dia seguinte numa aldeia vizinha. 

Dízimo: negócio de milhões      

Estes acontecimentos, que provocaram mortos e feridos ao longo de duas horas de fugas, perseguições e correrias, transformaram-se rapidamente num acontecimento nacional e até internacional. A UNITA e outras organizações de Oposição falaram logo a seguir em "centenas de mortos", de "massacre" e até de "genocídio". Um grupo de deputados o Parlamento Europeu, onde se inclui a deputada Ana Gomes, e um porta-voz do escritório da ONU para os Direitos Humanos, anunciaram ir pedir um inquérito internacional aos acontecimentos. O governo de Angola garantiu que as investigações estavam em curso e as instituições a funcionar. O Procurador da República no Huambo disse em Julho que ainda não foi feito um pedido formal nesse sentido. A verdade é que, acalmados os ânimos e refeitos os cálculos lógicos da quantidade de vítimas, foram decrescendo o tom das acusações e o número de mortos.
     
Hoje, Kalupeteka está detido numa prisão do Huambo, suspeito de homicídio qualificado, rebelião, desobediência e outros crimes graves. Chegaram a estar também detidos mais de 80 dos seus seguidores, mas terão sido entretanto libertados cerca de 60.
     
A Associação Mãos Livres, liderada pelo advogado David Mendes, tomou em mãos a defesa de Kalupeteka e da sua igreja. Algumas organizações, a começar pelo partido CASA-CE, com o líder Abel Chivukuvuku, já visitaram oficialmente o local. A UNITA, segundo o procurador Tito Cassule, ainda não esteve oficialmente no Monte Sume. Quanto aos número de polícias mortos, 9, todos estão de acordo, mas ninguém se entente quanto ao número de fiéis mortos. Mas em Angola já poucos falam em massacre.
     
Através da Net e do Facebook, têm sido divulgadas várias fotos de cadáveres, não reconhecíveis, alegadamente tiradas no Monte Sume. Foi divulgada também uma lista de membros de famílias ( que representam 100 pessoas fiéis de Kalupeteka) alegadamente mortas na altura. Em Julho último, a TVI foi ao Monte Sume e visitou várias aldeias dos município da Caála e do Bailundo. Os repórteres chegaram à fala com cinco homens e mulheres que constam da lista, e que estão vivos, bem como todos os seus filhos. Algumas destas famílias, que viviam no Huambo ou na Caála, regressaram às suas aldeias do interior da província e dizem esperar pelo refrescar dos ânimos. A verdade é que muitos deles mantêm a fé em Kalupeteka. 
     
O líder da "Luz do Mundo" criou um sistema organizado de pagamento do dízimo. Alguns dos fiéis que falaram à TVI, mesmo com pouco de seu, sustentam que o pagamento do dízimo é sagrado. "Está na Bíblia!". Aliás, Kalupeteka criou o seu pé-de-meia. Nos bairros de Luanda, segundo uma lista encontrada no Monte Sume, a "Luz do Mundo" recolhia milhões de kuanzas por mês. Só no Sambizanga há registo de mais de 200 mil kuanzas recolhidos num único mês. E a seita estava espalhada por várias províncias, sobretudo no Sul. Na Aldeia do KM 25, a casa de José Kalupeteka é, de longe, a mais imponente da zona. Pelas aldeias, os fiéis da "Luz do Mundo", radicais e cumprindo a regra do silêncio, recusam explicar como é que Kalupeteka explicava exactamente como é que o Mundo ia acabar. Mas todos garantem a sua lealdade ao homem que cantava, encantava e a ia convertendo cada vez mais gente e recebendo cada vez mais dinheiro.
     
Uma chusma de igrejas

Igrejas é o que não falta em Angola. São muitas e muitas centenas de igrejas, cultos, seitas e devoções. Existem seguramente mais de 1200 confissões - católicas, protestantes, evangélicas, adventistas e outras. Começam a aparecer também as mesquitas e as seitas islâmicas dos imigrantes do Golfo da Guiné e do Sahel. Nesta confusão de cultos, apenas 83 confissões estão devidamente legalizadas. 

Um projecto de nova lei sobre a liberdade religiosa está em discussão em Angola e já se instalou a discórdia. Uma das propostas é baixar de 100 para 60 mil o número mínimo de fiéis subscritores para que uma confissão/igreja seja legalizada. O projecto prevê ainda a obrigatoridade de apresentação do registo criminal e a declaração de bens e rendimentos dos seus líderes. Segundo os responsáveis de algumas igrejas, são demasiadas exigências. 
     
O "caso Kalupeteka" veio puxar para a ribalta toda esta discussão sobre as igrejas e a liberdade de culto, num país onde as pessoas são naturalmente receptivas ao contacto com o Além. Sempre com a questão do dízimo bem presente.
     
Para já, o Ministério Público prepara-se para fazer a acusação formal a Kalupeteka e a alguns dos seus principais seguidores. O advogado David Mendes, embora criticando as dificuldades que lhe terão sido postas para ir ao Monte Sume, garante que Kalupeteka "está bem e muito moralizado".
     
Pelas aldeias e cidades, os sobas e os fiéis das várias igrejas, a começar pela "Luz do Mundo" de José Kalupeteka, vão aguardando com mais ou menos serenidade os desígnios de Deus, mas sempre com algum nervosismo a Justiça dos homens. “” – FONTE : TVi

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ONU pede inquérito independente e imparcial a mortes em confrontos com seita angolana



“”(…)  A ONU pediu uma investigação independente as mortes de vários membros da seita evangélica “Luz do mundo” após confrontos com as autoridades angolanas, um caso que tem motivado balanços díspares.
O porta-voz do Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) pediu hoje que seja nomeada uma comissão independente para investigar o caso que opôs a polícia angolana e o grupo milenarista de inspiração cristã, liderado por José Julino Kalupeteka”, dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

“Compreendemos que o Governo lançou uma investigação, mas apelamos ao Governo para garantir uma investigação independente”, disse, em comunicado, o porta-voz da ACNUDH, Rupert Colville.
“Têm existido relatórios alarmantes nas últimas semanas sobre um alegado massacre na província central do Huambo em Angola. Temos trabalhado para recolher mais informação sobre o incidente mas os factos permanecem por esclarecer, com grandes diferenças do número de vítimas”.
Por isso, a ONU pede “um inquérito verdadeiro e independente, com uma rigorosa investigação” que fala um balanço correto do número de vítimas”.

As autoridades referem que morreram nove políticas e 13 civis na sequência de confrontos na Serra Sumé, no Huambo, mas outros relatórios indicam que houve pelo menos uma centena de mortos, enquanto outros assinalam mais de 1.000 mortos, segundo o ACNUDH.

No comunicado, a ONU mostra-se preocupada com a posição do estado angolana sobre aquela confissão religiosa, criticando a atuação dos media estatais que condenaram “violentamente” a seita.
Nesse sentido, “percebemos que alguns dos membros da seita e seus familiares permaneçam escondidos com medo de mais violência”, salientou o porta-voz.

O principal partido da oposição, União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) afirma que 1.080 civis morreram em confrontos entre os seguidores da seita e a polícia angolana, tendo pedido a intervenção da ONU para um “inquérito rigoroso e imparcial”.”” – FONTE : OBSERVADOR

sexta-feira, 8 de maio de 2015

PR recusa receber relatório da Casa-CE sobe confrontos no Huambo




“”(…)  O Presidente de Angola José Eduardo dos Santos recusou receber o líder da Casa-CE Abel Chivukuvuku que lhe pretendia entregar um relatório sobre os recentes confrontos no Huambo entre forças da ordem e membros da seita A Luz do Dia.
A polícia diz que nos confrontos morreram nove polícias e 13 civis, mas dirigentes da oposição têm afirmado que centenas de pessoas foram mortas. A Unita fala em mais de 700.
Chivukuvuku esteve recentemente no local e pediu uma audiência ao presidente José Eduardo dos Santos para lhe entregar o relatório sobre os acontecimentos do seu partido.
"Assim que chegamos do Huambo quisemos falar com o Presidente da República e entregar-lhe o nosso relatório sobre a digressão, mas o Presidente não quis nos receber, por isso decidimos publicar hoje este relatório”, disse o dirigente da Casa-CE que afirmou que num possível encontro com o Presidente queria também discutir questões que “possam não estar no relatório”.
Esta foi a segunda vez no espaço de um ano que Santos recusou-se a encontrar com Abel Chivukuvuku.
No relatório, a Casa-CE solicita ao Executivo uma investigação profunda do caso Kalupeteka com pessoas idóneas e neutras para se apurar a verdade. O partido  alerta igualmente o Governo a prestar mais atenção ao fenómeno de proliferação de seitas religiosas pelo país.
Num encontro com jornalistas, Chivukuvuku revelou também não querer acreditar que seja verdade a notícia que dá conta da autorização do Presidente da República para a compra de um avião de luxo no valor de 60 milhões de dólares.
"Não acredito que numa situação de crise o Presidente faça uma coisa destas”, concluiu o presidente da Casa-CE. “” – FONTE : VOA

terça-feira, 28 de abril de 2015

Casa-CE ameaça levar "caso Kalupeteka" ao Tribunal Penal Internacional e à ONU



“”(…)A Casa-CE promete levar o "caso Kalupeteka"  ao Tribunal Penal Internacional e às Nações Unidas se se confirmar o número de mortes que,  segundo a Unita e activistas, ascende a centenas.
Uma delegação da Casa-CE liderada por Abel Chivukuvuku está no Huambo e vai tentar subir a serra do Sumi, onde os parlamentares da Unita foram impedidos de entrar, apesar do governador do Huambo Kundy Pahiyama ter garantido acesso livre dos deputados da Assembleia Nacional.
De acordo com a Casa-CE, os assassinatos no Huambo continuam.
O deputado Leonel Gomes adiantou haver mais casos de matanças de seguidores da seita de José Kalupeteka nas últimas 24 horas noutras localidades da província.
"Ficamos surpreendidos que face ao que aconteceu que, até prova em contrário, parece ter sido uma chacina, não houve nenhum pronunciamento e o mais grave é que a caca às bruxas continua, por que ainda ontem houve matanças no Balombo, em Catata região do Ngove e no Longondjo", disse Gomes.
Caso se confirmem os números, aquele deputado promete que a sua bancada parlamentar poderá levar o caso à justiça internacional.
"Vamos tomar medidas claras, se necessário for levar o assunto junto dos órgãos de direitos humanos das Nações Unidas e ao Tribunal Penal Internacional", adiantou Leonel Gomes.

"Há muita gente que vive das lavras do monte Sumi e não consegue ter acesso ao monte porque qualquer movimento na área é recebido a tiro"", denunciou o deputado.
A VOA falou com uma testemunha ocular dos eventos, que se encontrava próximo de José Kalupeteka no primeiro dia dos confrontos entre os fiéis da seita A Luz do Mundo e a polícia e as Forcas armadas, mas que, por medo de represálias, pediu para não ser identificado.
"Houve muitos tiros, bomba mesmo, tipo aquele tempo de guerra, muitos tiros mesmos", disse, expressando primeiro em português e depois na língua materna.
"Eles proibiram-nos, disseram-nos que ali não podíamos entrar então começamos a desconfiar que o nosso líder Kalupeteka estava em apuros aí pegamos em pedras, paus, catanas e resolvemos atacar", denunciou a testemunha.
Até ao momento não conseguimos verificar nenhum óbito, nem na Caála nem aqui no Huambo, apesar de as autoridades da província dizerem possuir alguma informação, como indicou o governador do Huambo Kundy Pahiyama
"Os familiares vieram reconhecer os cadáveres, penso que alguns vieram de Benguela reconheceram parentes, mas devem ter levado para Benguela “” – FONTE : VOA