“”(…)
A petrolífera angolana Sonangol
é o motor de um Estado-sombra no país, que opera à margem da lei e que foi
criado e responde diretamente apenas às mais altas figuras políticas de Angola,
defende o jornalista britânico Tom Burgis.
Em entrevista à Lusa em Londres, o autor do livro "A Pilhagem de
África" defende que a Sonangol foi criada inicialmente para conseguir
financiar o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), mas que com o
passar dos anos acabou por ser a mais importante empresa nacional, controlada
diretamente pelos principais responsáveis políticos e fugindo ao controlo das
autoridades.
"Para manter o MPLA a andar, tinham de criar uma empresa que corresse
bem. A Sonangol é uma das melhores empresas africanas e mundiais, e foi Manuel
Vicente [vice-presidente de Angola], treinado aqui em Londres, que foi geri-la.
A partir de 2002 começa a ser óbvio que o MPLA vai ganhar a guerra, e portanto
a empresa pode privatizar-se, já não precisa de financiar a guerra, e torna-se
o motor deste Estado-sombra", defende o autor, jornalista de investigação
no britânico Financial Times.
"As instituições formais, como o Ministério das Finanças ou o Banco
Central, mantêm-se, mas a Sonangol é um Estado dentro de um estado, e responde
diretamente aos senhores do 'Futungo' [alcunha que designa o círculo do
Presidente angolano]: José Eduardo dos Santos, 'Kopelipa' e Manuel
Vicente", diz Tom Burgis, que foi durante anos correspondente do FT em
vários países africanos.
O livro tem 341 páginas e dedica 26 a Angola, em que se retratam as ligações
entre os dirigentes angolanos e as grandes petrolíferas ocidentais, bem como o
avanço da China e as enormes desigualdades num país onde "uma sandes
normal custa 30 dólares, mas a maioria da população vive na pobreza".
"A Pilhagem de África", explica o autor, "começa com a ideia
de que há uma maldição dos recursos, e mostra que os sítios mais ricos em
recursos naturais caíram sempre em golpes de estado, guerras, violência
interna, corrupção, opressão, e o padrão está mais exacerbado em África".
O continente africano, acrescenta, é normalmente olhado como mais pobre, mas
é o mais rico, tem um terço de todos os recursos naturais, "mas os padrões
de vida são terrivelmente baixos", tentando mostrar que "a maldição
dos recursos' não é um acidente, nem um conceito abstrato, é um sistema
concreto de pilhagem que liga políticos locais, autoridades de segurança,
intermediários, empresas petrolíferas e os consumidores dos materiais
recolhidos em África".
Como? A explicação é simples: "O livro explora as ligações entre o
poder político, que está concentrado em poucas pessoas, e mostra que os Estados
de recursos [naturais] não precisam de taxar as pessoas, portanto não precisa
de pedir apoio, de governar para as pessoas, só precisa de manter o fluxo de
dinheiro a vir", diz Tom Burgis.
O livro, escrito como se fosse uma longa reportagem, apresenta um conjunto
de indicadores para sustentar que a riqueza africana não está a ir para os
africanos, mas sim para uma pequena elite composta pelos privilegiados locais e
pelos investidores e pelas grandes empresas internacionais, "que
apresentam-se como tendo grandes regras contra a corrupção, grande controlo, mas
depois chegam a África e dizem que há estes 'africanos malucos e corruptos' a
tentarem tirar-lhes dinheiro do seu bolso".
Um dos exemplos do livro, que já tinha sido retratado nas páginas do
Financial Times, tem a ver com a norte-americana Cobalt, que explorou petróleo
em Angola em associação com a Nazaki, uma empresa que era detida parcialmente
por Manuel Vicente, Fragoso do Nascimento e o Chefe da Casa de Segurança do
Presidente, general Hélder Vieira Dias Júnior 'Kopelipa', sendo que Manuel
Vicente era na altura presidente da Sonangol, que atribuía as licenças de
exploração e escolhia os parceiros locais das petrolíferas internacionais.
"A esfera pública e privada é indiferente para estes senhores do
'Futungo'”, conclui o autor no livro, traduzido para português pela editora
Vogais. “” – FONTE :
NOTÍCIAS AO MINUTO